25 de jul. de 2010

Comunicação Madame Bovary, O Elemento Acrescentado

Autores: Heloisa Marchioro, Tâmisa Tiverolli, Prof. Dr. Welligton Fioruci

A presente comunicação tem por objetivo traçar um paralelo entre o clássico Madame Bovary, de Gustave Flaubert e o capítulo III do livro de Mário Vargas Llosa, A Orgia Perpétua. Llosa define como o “elemento acrescentado” a originalidade da obra, como se o romancista recriasse o mundo corrigindo a realidade de acordo com a sua percepção. Flaubert utiliza a extrema descrição de detalhes para desfazer a realidade e refazê-la novamente; trata-se da transfiguração, que caracteriza seu estilo.
As características da obra Madame Bovary são analisadas e desvendadas ao leitor, que passa a reconstruir seu conceito sobre o clássico. A extrema materialidade presente na obra, a mudança dos costumes tradicionais da narrativa, dando destaque aos objetos e ao mesmo tempo rebaixamento o homem a estes; a relação complexa de Ema com o amor e o dinheiro, sua necessidade de consumir e embelezar seu entorno, com sua condição de mulher, e o drama que ela vive entre ilusão e realidade e entre o que deseja e o que consegue ter, transformam a narrativa numa análise profunda da sociedade.
Llosa destaca também a dualidade constante na obra. O dilema de Ema entre o que é real e o que é fictício, e o elemento dramático, que é a briga entre a realidade objetiva e subjetiva, e que fazem parte do mundo binário de Madame Bovary.

4 de jul. de 2010

O Salto

Banda: O Rappa

Compositores: Marcos Lobato / Carlos Pombo

As ondas de vaidade

Inundaram os vilarejos

E minha casa se foi

Como fome em banquete

Então sentei sobre as ruínas

E as dores como o ferro a brasa e a pele

Ardiam como o fogo dos novos tempos

E regaram as flores do deserto

E regaram as flores com chuvas de insetos

Mas se você ver

Em seu filho

Uma face sua

E retinas de sorte

E um punhal reinar

Como o brilho do sol

O que farias tu?

Se espatifaria

Ou viveria

O Espírito Santo?

Aos jornais

Eu deixo meu sangue

Como capital,

E as famílias o punhal

À corte eu deixo o sinal, sinal!

A música O Salto é a faixa 10 do disco O Silêncio Q Precede o Esporro, gravado em 2003, pela banda O Rappa. Para uma análise mais aprofundada em todos os seus detalhes, foi visto o videoclipe da música, gravado em 2004, que complementa o sentido da canção.

Como a letra desta música é uma crítica social e essa é a principal característica da banda O Rappa, se faz necessário um breve comentário sobre seu contexto histórico.

A história é ambientada no início dos anos 90 (tempo diegético), quando toma posse o primeiro presidente eleito por voto direto após quase 30 anos de ditadura militar no Brasil. É com o discurso de posse de Fernando Collor de Mello, onde ele fala, inflamado: “... e assumo o dever, como o desafio de um novo tempo, o desafio de um Brasil novo que prometi...” que inicia a história do personagem da letra.

O presidente foi, em 92, afastado do cargo, acusado de corrupção. A força da mídia que o colocou no poder, fazendo de Collor o grande caça-marajás e paladino do povo brasileiro, o derruba, publicando denúncias a seu respeito, que servem como gota d’água para a Câmara dos Deputados, que vota seu impeachment.

O cenário da música brasileira dos anos 90 é muito rico, pois com a inauguração do canal MTV, novos talentos ganharam espaço fora da Rede Globo (principal veículo até então, em virtude das telenovelas). A música desse período é chamada de música popular urbana, e recebe influência de diversos ritmos, tais como: o maracatu (Nação Zumbi), o choro, o samba, a capoeira, no Brasil e dos Estados Unidos o heavy-metal, o rock progressivo, o pop-rock, o rap, o reagge e o funk. E ainda a influência da música eletrônica: o house e o drum & bass.

Analisando…

Segundo D’Onofrio, as modalidades de análise podem se dividir em crítica extrínseca e crítica intrínseca e dentro deste último o enfoque estilístico.

Este texto será analisado segundo o plano da enunciação, que estabelece relações entre o emissor e o receptor.

O texto foi dividido em quatro partes, tomando como parâmetro as falas do narrador ou eu-lírico.

As ondas de vaidade

Inundaram os vilarejos

E minha casa se foi

Como fome em banquete

Então sentei sobre as ruínas

E as dores como o ferro a brasa e a pele

Ardiam como o fogo dos novos tempos

O texto é construído com metáforas, e nessa primeira parte da música, a alegoria mostra ondas de vaidade destruindo casas, e o eu-lírico (o texto está em 1a pessoa) sentado sobre as ruínas, sofrendo as dores de um novo tempo.

A vaidade pode fazer referência ao presidente Collor, já que ele se utilizou tanto de sua imagem para conseguir conquistar o voto do povo. Esse mesmo presidente, derrubando as casas, destruindo lares, com sua fome de poder. E os novos tempos esperados não chegam. Só chega a dor que arde como fogo, a brasa e a pele.

E regaram as flores do deserto

E regaram as flores com chuvas de insetos

Esse trecho, que é o refrão da letra, está na 3a pessoa, indefinindo o sujeito. Regaram as flores do deserto, ou seja, não se sabe que tem a culpa de não ter feito nada, pois o ato de regar flores no deserto, é uma metáfora, diz respeito a fazer algo inútil ou mesmo não fazê-lo.

Ainda reforça a idéia com a parte seguinte, que fala E regaram as flores com chuvas de insetos, a intenção é de acabar com as flores. Por ingenuidade ou não, o eu-lírico se exime da culpa, pela vaidade que o poder lhe dá, no caso aqui o poder do voto, ou pelo medo de assumir o erro do ‘mau’ voto.

Mas se você ver

Em seu filho

Uma face sua

E retinas de sorte

E um punhal reinar

Como o brilho do sol

O que farias tu?

Se espatifaria

Ou viveria

O Espírito Santo?

Aqui, o texto ganha uma inversão, pois apresentado o problema, o eu-lírico se volta para o leitor-ouvinte e lhe faz perguntas, diretamente. O que farias tu? Se você visse em seu filho o seu sangue, e ele vivendo a sua realidade, onde a violência impera e só quem tem retinas de sorte conseguem ver além do que está posto, o que você faria? Você aguentaria a pressão ou preferiria crer em Deus e entregar sua sorte?

Aos jornais

Eu deixo meu sangue

Como capital,

E as famílias o punhal

À corte eu deixo o sinal, sinal!

E então, o texto volta para a 1ª pessoa, e o eu-lírico diz que aos jornais deixará como legado seu filho, o punhal aparece aqui outra vez, para as famílias e à corte (os ricos empresários, a mídia) deixa o sinal; o sinal da cruz, em referência ao Espírito Santo. Esse sinal também pode estar referenciando os sinais do apocalipse, em uma antítese: início dos novos tempos x final dos tempos.

Finalmente…

A banda O Rappa tem como estilo a temática social urbana. O Salto é uma forte crítica ao sistema democrático brasileiro. No videoclipe, o personagem salta de cima de um prédio, cometendo suicídio, com seu filho no colo. É disso que a letra trata: da fraqueza do homem diante ao sistema capitalista, diante da mídia, da propaganda massiva e da corrupção que toma o poder.

Ainda no videoclipe, a última cena escurece enquanto uma voz, atribuída a Waly Salomão, fala: “A memória é uma ilha de edição, câmara de ecos.” É também crítica a memória do povo brasileiro, que apesar do que aconteceu no passado, elegeu novamente Fernando Collor de Mello, que ocupa hoje uma cadeira no Senado Nacional, pelo PTB de Alagoas.

Referências…

D’ONOFRIO, Salvatore, 1933. Forma e sentido do texto literário. São Paulo: Ática, 2007.

http://videolog.uol.com.br/video.php?id=212057, acesso em 26 de junho de 2010.

2 de mai. de 2010

Que viagem....

Lá estava eu, mala pronta, limpinha com meu banho tomado, perfumada até, e cheia de ideais revolucionários. Sempre achei que deveria participar dos momentos políticos do meu país, mas ignorava os sacrifícios que teria que fazer. Longe das passeatas, greve de fome ou do chão duro em que dormíamos, refiro-me a viagem de 26 horas, de ônibus, que tivemos que fazer para chegar a Goiânia. Ah!, que saga interminável...
Saímos daqui de Pato Branco à noite, rumo ao 47° Congresso da UNE – União Nacional dos Estudantes – no inverno. No caminho, paradinha em Palmas, 5 graus de puro calor humano. A paisagem embaçada do frio noturno era convidativa ao sono profundo. Deus, quando vou conseguir me esquentar? Feitos os sobes e desces do ônibus, voltamos a viagem.
Você deve imaginar que, em um ambiente fechado como aquele, cheio de estudantes de 3° grau, deve ter rolado a maior orgia da Terra. Ledo engano. Toda a galera é do tipo ‘trabalho em tempo integral / estudo à noite’. Acomodamo-nos e, depois dos colóquios tradicionais, dormimos. A noite passou rápido depois que eu tomei um daqueles remedinhos para enjôo estilo ‘boa noite, Cinderela’.
Acordamos em algum lugar do país entre o Paraná e São Paulo, para o café da manhã e um banho matinal. Esse foi o último banho quente que eu tomei. Já nem tão perfumados assim, continuamos. Eu já sabia tudo da vida de todos quando cruzamos a fronteira com Minas Gerais. Almoçamos, jantamos, e..., ai, que não chega nunca! Continuamos outra vez. Chegamos a Goiânia quando já era madrugada e fomos muito bem recebidos pelos nossos colegas de Maringá, que já haviam chegado algumas horas antes.
Durante o Congresso fiz muitas amizades novas e escrevi em minha história mais uma página do capítulo política e cidadania, que iniciei quando participei das passeatas do ‘Fora Collor’ em Curitiba – sim, eu fui uma cara-pintada.
Nosso alojamento continha toda a sorte de diversidade. Dividimos espaço com os estudantes do Maranhão. Depois de mais de 36 horas sem dormir, de atos ilegais, Tom Zé e Suplicy, a nova diretoria foi eleita e meu papel cumprido.
Muitas discussões, falácias, politicagens, ideologias, risadas, palavras de ordem, banho gelado e falta de sono depois, o retorno para casa. Tem aqueles que acham que o retorno sempre demora mais. É engraçado, pois a viagem pode ser a mesma, mas nossas expectativas são diferentes, na ida e na volta. Todo mundo conhece a sensação da chegada e da partida.
Nosso último almoço foi em São Paulo, num restaurante que tinha um lago com um recanto lindo, cheio de patos brancos nadando...e eu, cheia de saudades de casa.

13 de jan. de 2010

Um texto bonito...

Este texto abaixo não é meu, é do poeta estadunidense Walt Whitman, mas eu gostaria de tê-lo escrito. É lindo.


“Eu vejo alguma coisa de Deus em cada hora das vinte e quatro, e em cada momento. No rosto dos homens e das mulheres eu vejo Deus, e no meu próprio rosto no espelho. Eu encontro cartas de Deus caídas na rua, e cada uma delas assinada com o nome de Deus. Eu as deixo onde estão, pois sei que não importa aonde eu vá, outras virão... infalivelmente... eternamente!”.

26 de dez. de 2009

Um errinho

Ora vejam vocês:

<<O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa registra a locução substantiva happy hour (do inglês happy hour) com o significado inicial de «período do dia em que o preço das bebidas nos bares é reduzido ou em que aperitivos são servidos gratuitamente». Atualmente indica «o período do dia, no fim da tarde e após o encerramento do trabalho, em que se tomam em convívio bebidas, a pretexto de serem aperitivos para o jantar>>.

Raptei essa definição do site http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=19624, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, hoje, eram 9 horas da manhã. Por que tão cedo? Porque abri o jornal Diário do Sudoeste quando cheguei ao escritório em que trabalho e me deparei com um erro de Português, ops, de Inglês.
Lá estava escrito: Lei quer limitar espaço do "hapy hour" nas áreas centrais da cidade. As aspas são do autor da matéria, Pedro Rodrigues Neto. A matéria saiu na edição do dia 23 de Dezembro de 2009, página A6.

Me faz pensar: será que as palavras que tomamos emprestadas de outras línguas também não devem ser criteriosamente 'corrigidas' por um profissional qualificado? E que profissional é esse? O mesmo que transcreve para a norma culta a realidade jornalística da Língua Portuguesa?

A mim, parece que sim. Claro, se este profissional tiver conhecimento também nos estrangeirismos, neologismos, etc e tal. Mas se ele for um bom profissional, via de regra, ele tem este conhecimento.

Procurei em todos os cantinhos do jornal o nome do dito cujo que o corrige, mas não encontrei. Seria fácil saber, pois em uma cidade pequena como a nossa, onde só existe um jornal, todos do ramo devem saber quem é 'o cara'.
Não desmerecendo obviamente esta pessoa, pois qualquer um pode errar. Mas como uma futura profissional de Letras, habilitada em Português e Inglês, me vejo na obrigação de defender minha classe.

Do que é feito um jornal senão de palavras? De informações escritas? De jornalistas (entre outros profissionais) que durante a faculdade tanto aprendem a achar a melhor notícia como aprendem a contá-la utilizando a única ferramenta de que dispõe: a Língua Portuguesa? E quem contrói este conhecimento? Os professores de Língua Portuguesa? É, são eles.

Leio o jornal Diário do Sudoeste todos os dias, salvo quando realmente não dá tempo. Sei que eu apenas sou uma iniciante na minha língua, faz apenas 33 anos que a utilizo. Mas um errinho aqui, outro ali e logo, logo, não saberemos mais o que é certo. Isso se aplica em tudo que fazemos.

É só uma opinião.

12 de dez. de 2009

Vida bandida


Agora de férias, quem sabe, consigo escrever mais, ler mais, brincar mais.
Chega de coisas sérias demais.

O caráter singular da língua na Análise de Discurso[1]

Heloisa Cristina Rampi Marchioro [2]             O artigo de Maria Cristina é introdutório, e tem como tema principal falar sobre a...