27 de abr. de 2015

O CONTEXTO DA LÍNGUA, A LÍNGUA EM CONTEXTO


A língua de que se fala

            A noção de língua é central para os estudos da linguagem em todas as suas perspectivas. Desde a Antiguidade até o século XIX muitos passearam e muitos se firmaram no campo da Linguística com seus pensamentos que procuravam uma resposta para qual seria a natureza da linguagem, se a língua é natural ou convencional, sobre a relação palavra e pensamento, língua e objeto. Questionaram a natureza da língua. Tentaram explicá-la de forma cartesiana, disseram que a língua é a representação do pensamento, instituíram o erro e a pureza.
É mais tarde, no século XX, que a Linguística tal como ciência é inaugurada a partir do Curso de Linguística Geral, de F. de Saussure. É dele, segundo Sechelaye e Bally (1916), a definição que estabelece a Teoria dos Signos, e a nova ciência ganha seu método e objeto: a língua. Saussure diz que a linguagem é dividida em língua e fala, e que a língua é, então, o objeto da Linguística. Aí está o corte saussureano. Ele define a língua como um conjunto de convenções adotadas pelo corpo social (massa falante), afirmando assim que a língua é convencional, é homogênea, é um todo por si: imanente.
Saussure cria, ou estabelece, diversas dicotomias, tais como: língua e fala; diacronia e sincronia, paradigma e sintagma, significante e significado, mutabilidade e imutabilidade. Afirma que na língua só há diferenças. É dos seus alunos que surge o termo estrutura para definir a língua, é de Saussure a noção de língua como sistema.
Se a língua para Saussure é sistema, estrutura, unidade, fato social, a fala é incapaz de ser una, é individual, é inclassificável, inconstante.
Outro teórico da Linguística, Noam Chomsky, estabelece a Teoria da Sintaxe e define o que é performance e competência. A competência é o objeto desta teoria, e se define como sendo a capacidade de todo sujeito de produzir e compreender todas as frases da língua. Descrevendo essa competência temos todas as regras da língua, sua gramática. Temos aí duas teorias em que a questão de base é a unidade da língua.
Em outra teoria, a Teoria do Discurso, a língua tem unidade e ordem, porém não é tida como um sistema perfeito, completo e fechado. A língua é sujeita a falhas, afetada pela incompletude. E isso não é tomado como defeito ou erro, antes é próprio da materialidade da língua, a constitui. E falaremos mais sobre esta língua, tida aqui como nossa noção “escolhida” de língua.
Eni P. Orlandi, em seu livro Língua brasileira e outras histórias (2009), introduz ao conceito de língua – da Teoria dos Signos de Saussure - uma distinção, que ela constrói com os nomes de língua fluida e língua imaginária: esta, a língua do imaginário, perfeita e una, enquanto aquela, heterogênea, a língua que não se consegue controlar. A língua imaginária, para ela, é a língua sistema de regras e fórmulas, “Objetos-ficção que nem por isso deixam de ter existência e funcionam com seus efeitos no real.” (p 18). A língua fluida, por sua vez, é a língua em movimento, em constante mudança, que não se deixa imobilizar pelas regras e fórmulas,

“a que podemos observar quando focalizamos os processos discursivos, através da história da constituição das formas e sentidos, nas condições de sua produção, na sociedade e na história, afetada pela ideologia e pelo inconsciente. A que não tem limites, Fluida.” (idem).

Dessa forma e com essa visão sobre as teorias linguísticas – algumas, é claro, destacadas aqui – passamos a compreender a língua dentro da Teoria do Discurso, filiada à Análise de Discurso de tradição francesa, que é um dos objetivos desse trabalho.
           
A língua para a Análise de Discurso

A Análise de Discurso (chamada de AD a partir daqui) entende que a linguagem, em suas esferas discursivas, é a mediadora entre a realidade do mundo e o homem. É por meio da linguagem que o homem se constitui como sujeito, inserido em uma história, em um processo e em condições de produção de linguagens diferentes.
Como afirma Eni Orlandi (2006), a AD desloca a dicotomia língua e fala, propondo uma relação não dicotômica entre língua e discurso. Porque, tendo em vista a noção de língua e fala de Saussure, ao separá-las de maneira dicotômica, separa também o que é social do que é histórico. E para a AD, no discurso o social e o histórico são inseparáveis, indissociáveis.
Para Ferreira (2003), em seu artigo O caráter singular da língua na análise do discurso, a língua passou a ganhar maior importância com Michel Pêcheux, quando este formulou questões envolvendo o equívoco como fato estruturante da língua, o que deu lugar para se discutir o real da língua, noção derivada da psicanálise. “Precisamente da língua e de seu encontro com a história surge a possibilidade de trabalhar o equívoco, que irrompe como lugar de resistência inerente à língua e à sua constituição.” (FERREIRA, p. 195-196).
A língua é uma estrutura que tende a regularidades (Milner apud Ferreira, 1994 {leitura da tese dela}), entretanto essas regularidades podem ser (e são) afetadas em alguns pontos. São os pontos da falha, de rupturas e do impossível, que mexem com a estrutura da língua. E isso põe a questão da completude da língua em xeque. A língua é sim um sistema, mas é um sistema instável.
É porque não conseguimos dizer tudo que a língua é estudada pelo analista de discurso diferentemente de que por um linguista que a estuda como imanente e completa. A língua comporta em si um “não-todo”[1], que vem a constituir o seu “real”, como dissemos antes, espaço para o equívoco.
A noção de língua é fundante em AD, pois a língua é a condição de possibilidade de discurso.
Sendo assim, como Ferreira afirma em sua tese: “para o analista de discurso a língua não é objeto, mas pressuposto para analisar a materialidade do discurso. E, por ai, redefine-se a noção de língua, descentrando-a e remetendo-a a outra ordem: a ordem do discurso.”.

Algo sobre o discurso

            A AD faz a relação da língua com o discurso e a ideologia, porque, segundo Orlandi, a materialidade da ideologia é o discurso. Então, é no discurso que a relação ideologia e língua podem ser observadas. Isso se reforça quando a autora afirma que “o sujeito discursivo funciona pelo inconsciente e pela ideologia.” (ORLANDI, 2013a, p 20).
            Como afirma Orlandi (2013a, p 15), o discurso é a “palavra em movimento, prática de linguagem” e é através de sua análise que compreendemos como a língua faz sentido, enquanto este trabalho simbólico, que constitui o homem social e sua história.
            É através do discurso que é possível transformar a realidade ou mantê-la, e ele é “a base da produção da existência humana” (ORLANDI, 2013a, p 15). O discurso é tomado como não mera transmissão de mensagens ele coloca em movimento a relação dos sujeitos com os sentidos pelos quais são afetados, através de sua história e pela língua. É um complexo processo, em que “o discurso é efeito de sentidos entre locutores”. (ORLANDI, 2013a, p 21).
            Os efeitos de sentido se relacionam com as condições de produção, condições estas que compreendem sujeito e situação, envolvem memória e interdiscurso e se filiam a uma ideologia e se fazem notar pela língua.
            Segundo Orlandi (2013a), o sentido não existe sozinho, ele é reflexo das posições ideológicas em relação com o processo sócio-histórico em que se dá a produção das palavras. Ou seja, conforme o sujeito que emprega uma palavra, o sentido muda de acordo com suas filiações ideológicas. Assim sendo, a formação discursiva determina o que se diz ou deve ser dito de uma posição ideológica dada. Então, os sentidos sempre são determinados ideologicamente e “é pela referência à formação discursiva que podemos compreender, no funcionamento discursivo, os diferentes sentidos” (ORLANDI, 2013, p 44).

O sentido é assim uma relação determinada do sujeito – afetado pela língua – com a história. É o gesto de interpretação que realiza essa relação do sujeito com a língua, com a história com os sentidos. Esta é a marca da subjetivação e, ao mesmo tempo, o traço da relação da língua com a exterioridade: não há discurso sem sujeito. E não há sujeito sem ideologia. Ideologia e inconsciente estão materialmente ligados. Pela língua, pelo processo que acabamos de descrever. (ORLANDI, 2013, p. 47)

Ainda, sobre as condições de produção, Orlandi (2013a, p. 30) afirma que estas compreendem os sujeitos e a situação. No sentido estrito, tem-se as circunstâncias da enunciação; em sentido amplo, incluem o contexto sócio-histórico, ideológico.

Referências

BAKHTIN, Mikhail M. Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

FERREIRA, Maria Cristina Leandro. O caráter singular da língua na análise do discurso. Revista Organon (UFRGS), Instituto de Letras/UFRGS, v. 17, n. 35, p. 189-200, 2003

NUNES, José Horta. O discurso documental na história das ideias linguísticas e o caso dos dicionários. São Paulo: Alfa, 52 (1): 81-100, 2008.

ORLANDI, Eni P. Análise de Discurso in ORLANDI, Eni P.; LAGAZZI-RODRIGUES, Suzy. Introdução às ciências da linguagem - Discurso e textualidade. Campinas, SP: Pontes, 2006.

ORLANDI, Eni P. Língua brasileira e outras histórias – discurso sobre a língua e ensino no Brasil. Campinas, SP: RG, 2009.

______________. Análise de discurso – princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 2013a.

______________. Língua e conhecimento linguístico: para uma história das ideias no Brasil. São Paulo: Cortez, 2013b.



[1] Lacan formulou o axioma a seu modo: “o dizer é da ordem do não-todo”. Este não-todo, segundo Ferreira (tese), “suportado pela língua, vem a constituir o seu real. [...] O termo real da língua, vindo da psicanálise e desenvolvido na linguística, sobretudo por Milner, é tratado em francês como “lalangue”, o que em português corresponderia a “alíngua”.”

Ensaio sobre a Língua



“[...] Ninguém muda de posição sobre nada por causa do sintagma ou do paradigma.” [1]

O que é língua?

            Língua é tudo que me rodeia. Está nas placas pelas ruas, na etiqueta da minha roupa (lembro-me do poema Eu, etiqueta de Carlos Drummond de Andrade), nos meus pensamentos – até naqueles que eu nunca ousaria verbalizar. A língua me constitui, me constrói, me aproxima e me distancia. Me coloca em interação com o Outro, com “outros”, outros seres, outras ideias, outros caminhos. Está naquele livro, a gramática, mas está antes de tudo na ponta da minha língua.
            A língua é um emaranhado de regras e exceções, nomes difíceis - como metaplasmo, sinédoque, catacrese (?). Mas essa língua, e agora eu sei (!), não é a língua que eu falo e nem precisa ser, como a professora queria. Essa é a língua culta, padrão, certa, correta, direita, prestigiada. E como eu não sou nada disso, não preciso usá-la. Preciso conhecê-la, há sim, para quando, quem sabe, eu tenha que escrever uma carta para o presidente... ou apenas um currículo para arrumar um emprego, ou talvez um memorando, um e-mail para o meu chefe. Ou seja, para ser útil nessa lida capitalista diária.
            Mas tem a outra língua, aquela que eu falo, que eu uso, que me faz ser quem eu sou. A língua tal qual me expresso aqui, sem muita preocupação com a má fama. A língua mal falada, que precisou de muitos estudiosos para defendê-la, provando que a variedade não fazia dela um traste (aqui me recordo de outro poema – Teologia do traste, de Manoel de Barros), criando até um novo caminho para os estudos linguísticos.
            Muitos tentaram transformar a língua em cálculos matemáticos, em árvores (esquecendo-se dos frutos, das folhas e, principalmente, das flores), em sistemas. Disseram que ela serve apenas para comunicar, como um instrumento que se usa para cumprir uma tarefa. Nos chamaram de locutores, emissores, indivíduos, falantes... sujeito. Enfim.
A língua, vista de uma forma que deixa outras de lado[2], é a condição para que exista possibilidade de discurso e discurso, por sua vez, é efeito de sentidos entre locutores (Orlandi, 2013). Ela funciona inscrita na história, nos sentidos, é falha, é relativamente autônoma. É a base material para os processos discursivos.  Dessa forma, a língua é simbólica, ela faz sentido de diferentes maneiras, para diferentes sujeitos, interpelados por diferentes ideologias. A língua é o lugar da ideologia. Para que ela faça sentido, existe um sujeito, que, interpelado pela ideologia, inscrito na história, a trabalha simbolicamente. E agora, então, a língua tornou-se algo tão complicado de explicar que penso nem conseguir (saber) fazê-lo. De fato estava mais simples com a gramática.
A partir dessas tentativas de definição e da leitura dos textos propostos, o sentido deles (textos) não está nas suas palavras (língua), e sim nas relações: sujeito – ideologia – história. O texto do Fernando Sabino traz um sujeito que na posição de poeta, artífice das palavras, se imagina no controle dos sentidos: “Tento adequar a linguagem àquilo que ela procura exprimir [...]”. Para Coracini, o sujeito também aparece no centro, como nos verbos: comunicar, provocar, dizer, sentir, permitir. Clarice Lispector e João Cabral de Mello Neto têm em comum algo: que o leitor deve ser atraído pela “isca”, que são as palavras. As palavras e as não-palavras, as palavras que boiam no papel como as palhas e o eco que surge quando se sopra o feijão. Palavras escritas e silêncio. A “isca” é o efeito de sentido que o sujeitor-leitor atribui quando em relação com o texto, em um trabalho de interpretação, compreensão, que o faz terminar a leitura e depois dela, transformar-se.
Essa língua, que me permite existir enquanto sujeito, pode ser a da gramática, pode ser aquela que está na ponta da minha língua. Não importa. É por meio dela que existo.
           





Teologia do traste - Manoel de Barros

As coisas jogadas fora por motivo de traste
são alvo da minha estima.
Prediletamente latas.
Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.
Se você jogar na terra uma lata por motivo de
traste: mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes, por
exemplo, do que as ideias.
Porque as ideias, sendo objetos concebidos pelo espírito, elas são abstratas.
E, se você jogar um objeto abstrato na terra por motivo de traste, ninguém quer pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes.
A gente pega uma lata, enche de areia e sai
puxando pelas ruas moda um caminhão de areia.
E as ideias, por serem um objeto abstrato concebido pelo espírito, não dá para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.
Ideias são a luz do espírito - a gente sabe.
Há ideias luminosas - a gente sabe.
Mas elas inventaram a bomba atômica, a bomba atômica, a bomba atôm.........................................................................................
Agora eu queria que os vermes iluminassem.
Que os trastes iluminassem.


 Eu, etiqueta – Carlos Drummond de Andrade

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.


[1] POSSENTI, Sírio. A cor da língua e outras croniquinhas de linguista. Mercado de letras, Campinas – SP, 2001.
[2] Falo agora do lugar da Análise de discurso, ou tento.

7 de out. de 2012

Memórias sentimentais de João Miramar – Oswald de Andrade




Memórias sentimentais de João Miramar – Oswald de Andrade
                                                                                                                            
Heloisa Cristina Rampi Marchioro
           
“Alegria dos que não sabem e descobrem.”
Oswald de Andrade, Manifesto da poesia Pau-Brasil.

            Ler uma obra como Memórias sentimentais de João Miramar torna a literatura algo muito além do linear, rompendo com as estruturas até agora consolidadas. Existe nesta obra algo de tão diferente que a justifica como um marco em nossa literatura: o modo de contar uma história. O enredo é simples. Nas palavras de Antônio Cândido[2] resume-se a: “matrimônio — amante — desquite — vidinha literária — peripécias financeiras”. Há nesta história a clara intenção de fazer uma sátira com a aristocracia brasileira durante o ciclo do café e isto vem ao encontro dos manifestos “Pau-Brasil” e “Antropofagia”, de acordo com Alfredo Bosi[3].

  1. Poesia Pau-Brasil

            O que impressiona na obra, como dito, é a maneira como foi construída. Críticas à sociedade, manifestações contra a ordem das coisas, tudo isso já foi visto antes. Mas Memórias sentimentais de João Miramar é uma obra híbrida, fruto de uma mudança paradigmal:
“Esperemos com calma os frutos dessa nova revolução que nos apresenta pela primeira vez o estilo fotográfico e a metáfora lancinante”[4]
           
            Segundo Bosi (2005),
           “A “nova revolução” tem sido aclarada pela crítica de tendência estruturalista. (...) Esse tipo de prosa que confina com a condensação poética foi, ao que parece, elaborado simultaneamente com as “palavras em liberdade” de Pau-Brasil. ”.

            Como Oswald diz no Manifesto da Poesia Pau-Brasil[5], “a poesia é feita de fatos (...) são fatos estéticos.” Como a prosa sempre teve a característica da verossimilhança, a poesia pode ficar muito mais livre na fantasia. E o que existe, desde o pré-Romantismo, é um movimento revolucionário do conceito do poético: enquanto a prosa literária tende a poetizar-se, a poesia aproxima-se da prosa literária renunciando aos esquemas de métrica, ritmos e estrofes.

           “A fronteira entre a poesia e prosa literária é bastante fluida, existindo formas intermediárias, chamadas de poemas em prosa ou prosas poéticas.” (D’Onofrio, 2007)

            No seu manifesto, Oswald defende a poesia “ágil e cândida”, “sem arcaísmos, sem erudição”. Pode-se perceber estas características permeando toda a narrativa, como vemos nos fragmentos a seguir escolhidos para a análise.

  1. Miramar

            O primeiro episódio é chamado O Pensieroso – o livro é dividido em 163 deles – Oswald inicia:
“Jardim desencanto
O dever e procissões com pálios
E cônegos
Lá fora
E um circo vago e sem mistério
Urbanos apitando nas noites cheias
Mamãe chamava-me e conduzia-me para dentro do oratório de mãos grudadas.
— O Anjo do Senhor anunciou à Maria que estava para ser a mãe de Deus.”[6]

            Os “capítulos instantes”, como denomina Bosi (2005), são a característica marcante da narrativa, e a poeticidade dos episódios iniciais conta a vida do menino João Miramar, que faz um desenho poético em nível descritivo do espaço em que ocorre a narrativa:

“A cidade de São Paulo na América do Sul não era um livro que tinha cara de bichos esquisitos e animais de história.”[7]


            O nome deste episódio é “Éden”, referência satírica ao paraíso, e desta forma Oswald descreve a cidade onde mora, a cidade que critica e que irá ambientar grande parte da narrativa.
            Durante a viagem do personagem, no episódio 52, chamado “Indiferença”, João Miramar conta sobre a visão de Paris e a saudade do Brasil, de São Paulo:
          
           “(...) Meus olhos vão buscando lembranças
Como gravatas achadas
          
           Nostalgias brasileiras
São moscas na sopa de meus itinerários
São Paulo de bondes amarelos
E romantismos sob árvores noctâmbulas
(...)
           Rue de La Paix
Meus olhos vão buscando gravatas
Como lembranças achadas.”[8]
           
            A poesia livre se transforma em narrativa e faz o que propõe o manifesto: “anuncia a volta ao sentido puro (...). O melhor de nossa tradição lírica”.  É um contrário entre um país contraditório, atrasado, porém moderno e o primeiro mundo parisiense. “O Brasil profiteur[9]”



            No episódio 74, “Sal o may”, mais uma vez Oswald utiliza-se da linguagem poética, com recursos que utiliza muito como a aliteração e a onomatopéia, para desenhar um quadro – de imagens e sons - da sua cidade:

“Os cabarés de São Paulo são longínquos
Como virtudes

Automóveis
E o pisca-pisca inteligente das estradas
Um soldado só para policiar minha pátria inteira

E o gru-gru dos grilos grelam gaitas
E os sapos sapeiam sapas sopas
No alfabeto escuro dos brejos
Vogais

(...)

— Eu não ligo
— Eu quero saber que negócio é esse de esperar com o revólver na estrada
— Aquele capanga preto mandou o braço e a mulher levou um pontapé
— Na barriga
O saxofone obstina uma dor de dentes delirantes
Que o maxixe espasma
Entre tiros e gorjetas
Mas o escapamento aberto escapa
Na noite penitenciária

— Senhor dai-nos o pão-de-ló iluminado da redenção
O Tietê rola rumas de tijolos
Cor-de-água cor-de-rosa”


            Oswald de Andrade soube contar em prosa poética a nossa nação, mas não somente sobre seu espaço moderno, como afirma Bosi (2005), mas também a sua vida colonial e pré-colonial. Nessa combinação entre o modernismo e o primitivismo, que é na realidade o que pregou o manifesto Pau-Brasil, que desponta sua poesia transformada em prosa, ou vice-versa. Como ele mesmo disse ser o “primeiro cadinho de nossa prosa nova.”
Quando se tem o significado de cadinho, muito se entende de sua obra: cadinho é um lugar onde se mesclam ideias diferentes, elementos de origens variadas. “A coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil.”[10]

Referências:

Andrade, Oswald de. Memórias sentimentais de João Miramar. 12 ed. – São Paulo : Globo, 1999.

Andrade, Oswald de. Manifesto da poesia Pau-Brasil. Correio da Manhã, 18 de março de 1924.

Bosi, Alfredo, História concisa da literatura brasileira, 42 ed. São Paulo : Cultrix, 2005.

D’Onofrio, Salvatore. Forma e sentido do texto literário. São Paulo: Ática, 2007.


           



[1] Heloisa Cristina Rampi Marchioro é acadêmica do 7° período do curso de Licenciatura em Letras Português-Inglês, Câmpus Pato Branco.
[2] Antônio Cândido, "Estouro e Libertação", recolhido em Brigada ligeira, livraria Martins Editora, São Paulo, sem data, pp. 11/30 apud Miramar na Mira - Haroldo de Campos, Apêndice do livro Memórias sentimentais de João Miramar / Oswald de Andrade, 12 ed. São Paulo: Globo, 1999.
[3] Alfredo Bosi, História concisa da literatura brasileira, 42 ed. São Paulo : Cultrix, 2005.
[4] Prefácio de Memórias sentimentais de João Miramar.
[5] Oswald de Andrade. Manifesto da poesia Pau-Brasil. Correio da Manhã, 18 de março de 1924.
[6] Oswald de Andrade. Memórias sentimentais de João Miramar. 12 ed. – São Paulo : Globo, 1999. p. 45
[7] Idem.
[8] Idem.
[9] Aproveitador, especulador. Em: Oswald de Andrade. Manifesto da poesia Pau-Brasil. Correio da Manhã, 18 de março de 1924.

[10] Oswald de Andrade. Manifesto da poesia Pau-Brasil. Correio da Manhã, 18 de março de 1924.

26 de fev. de 2012

Era uma quinta-feira

Não, poderia ser qualquer quinta-feira. Pois todo dia pode ser um dia surpreendente, já que a maioria não o é. Mas, eis que desta vez, foi uma quinta diferente; marquei um compromisso mental de esperar uma ligação. Não esperei com muito afinco, fiquei com medo da decepção. Temos medo dos sentimentos tristes, que desequilibram nossa felicidade. Mas a ligação veio, e com ela a esperança, mesmo que discreta, de me tornar alguém muito especial para outro alguém. Por uma quinta-feira.
Não posso dizer tudo o que sinto nem tudo o que desejo, mas posso dizer como foi. E foi algo mirífico, como devia mesmo ser. Seus olhos nos meus, sua pele na minha, o desenho que fica na memória como que impressa nas retinas, para todos os lados e tempos que olho, sinto o ar me faltar nos pulmões. É um suspiro, uma lembrança. Nada vai fazer com que eu esqueça. Eu esperarei por todas as próximas quintas-feiras e por todos os dias da minha existência. Porém, não com muito afinco...

14 de ago. de 2011

Sussurro sem som
onde a gente se lembra
do que nunca soube.

(Guimarães Rosa apud Tâmisa)

31 de jan. de 2011

Procura-se



Leda Márcia Rizzardo Pareja

Procura-se alguém que saiba viver por muitas pessoas. Que saiba chorar na vitória e chorar na derrota, sorrir para consolar, sorrir para agradar. Que grite diante da traição e das injustiças, que saiba o que é certo e o que é errado, que defina as melhores coisas das piores, que ame seu próximo, auxiliando-o. Diante das brigas, construa a amizade. Que estenda a compreensão entre todos os povos. Que assuma o poder do amor, da convivência. Que não seja apenas um corpo entre muitos, com cabeça, dois olhos, braços, pernas, coração. Que seja, além disso, “gente”, que com os olhos enxergue a realidade, com o nariz sinta o aroma da união, que com os ouvidos ouça todas as verdades verdadeiras, que pise sobre as ruas da alegria, praças da ilusão, bosques da esperança: que ofereça seus braços diante da solidão e do abandono. Que construa a única casa com tijolos diferentes e derrame, sobre eles, o cimento da paz.
Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, da madrugada, de pássaros, de sol, da lua, do canto dos ventos a das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois, todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vazio que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações da infância. Precisa-se de um amigo para não enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se consciência de que ainda se vive.

4 de dez. de 2010

O carreiro, a pingela, o pote de ouro

Corria um boato entre os meninos, inclusive entre meus irmãos, que no final daquele carreirinho que leva até o cemitério havia um pote de ouro, que ficava lá por algumas horas depois de uma bela chuvarada. Eu, que sou pra lá de corajosa, tinha que dar um jeitinho de conferir, e de quebra tirar um sarro dos meninos.
Esperei pacientemente pelo tempo chuvoso ideal, que não se armava nunca. A conversa do pote de ouro estava cada vez mais convincente, e eu já fazia meus inocentes planos de como gastar todas aquelas moedas de ouro. Eu iria guardar uma pra mim, claro, só pra ficar olhando e lembrando como fui brava em minha empreitada. Todos os dias abria a janela, antes de me arrumar para ir à escola, e verificava a possibilidade da chuva. Não contava pra ninguém, pois queria tudo só pra mim.
Eis que uma bela manhã anuviada formou-se, e eu feliz fui pra aula já com meu itinerário pensado: passar pela pinguela, pelo carreiro, pelo cemitério e enfim correr ao meu tesouro! Durante a aula de Gramática começaram os primeiros pingos que se transformaram em um temporal. E eu, não cabia em mim.
Na saída da escola, despistei meus irmãos e fui, de guarda-chuva em punho, uniforme impecavelmente limpo, cachinhos dourados balançando. Cheguei até a pinguela, que tinha só umas tábuas suspensas e uma corda estendida pra segurar. Pensei: Sou leve, a ponte aguenta! E aguentou. Meus sapatos já estavam encharcados, minhas meias brancas já não tão brancas – minha mãe ia ter um treco.
Quando me deparei com o carreirinho, não olhei para os lados. A chuva já havia cessado, mas o dia estava escuro, e as árvores fechavam em torno do caminho, deixando tudo densamente pavoroso. Cada pedra que eu pisava eu pensava: Uma cobra vai pular em mim! Socorro! Mas, que nada. Cheguei em frente ao portão do cemitério. Agora sim, precisaria de toda a coragem do mundo. Abri o portão que parecia mais um cenário do filme do Drácula. Rangeu alto, assustador. Meio que fechei os olhos, traçando uma reta, e segui.
Não sabia quanto tempo havia se passado, nem imaginava se alguém teria sentido minha falta na mesa do almoço – claro que estavam todos atrás de mim, mas naquele momento nada disso importava.
Foi quando cheguei ao final do cemitério e dei de cara com um muro super alto, alto mesmo. Olhei para os lados, não havia nada. Nada. Nem pote, nem ouro, nem saída.
O único caminho para sair dali era voltar. Larguei-me sentada num dos túmulos, já sem medo e com um ódio cego: Aqueles meninos me pagam !!!

O caráter singular da língua na Análise de Discurso[1]

Heloisa Cristina Rampi Marchioro [2]             O artigo de Maria Cristina é introdutório, e tem como tema principal falar sobre a...